Mostrando postagens com marcador Bispo Paulo Lockmann. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bispo Paulo Lockmann. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de abril de 2010

Jesus: O Servo Sofredor

Isaías 53

1) O servo sofredor, uma mensagem em Isaías.
O ebed yavé - servo sofredor - seria o grande tema da segunda parte do livro de Isaías (Is 40-55). Ali, como uma figura, é idealizado Israel, Jacó, Abraão, o servo do Senhor. Conforme o texto: “Mas tu, ó Israel, servo meu, tu, Jacó, a quem elegi, descendente de Abraão, meu amigo, tu, a quem tomei das extremidades da terra, e chamei dos seus cantos mais remotos, e a quem disse: Tu és o meu servo, eu te escolhi e não te rejeitei, não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel.” (Is 41.8-10); “Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios” (Isaías 42.1); “Agora, pois, ouve, ó Jacó, servo meu, ó Israel, a quem escolhi.” (Is 44.1) “Quem há entre vós que tema ao SENHOR e que ouça a voz do seu Servo? Aquele que andou em trevas, sem nenhuma luz, confie em o nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus. ” (Is 50.10).
Todos esses textos são ora a idealização da figura de Jacó, outras o próprio profeta, mas fica notório que em Isaías 53 a figura do profeta sofredor é uma descrição muito real da vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus. Isto é tão verdade para nós cristãos que o próprio Novo Testamento já reconhece isso: o apóstolo João, ao falar da incredulidade dos judeus, usa o texto de Is 53.1, dizendo: “... para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?” (Cf. Jo 12.38). Mateus, referindo-se às curas milagrosas de Jesus, diz: “... para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.” (Mt 8.17). Nas cartas de Paulo, 1 Pe, são frequentes as citações a Isaías, especialmente a Isaías 53. O hino do servo sofredor para nós cristãos aponta Jesus, o Messias.
2) Elementos do Servo sofredor na vida e ministério de Jesus. Is 53.
Vamos mostrar como o texto forma um "tipo", ao qual Jesus incorpora os traços em sua vida.
a. "Quem creu em nossa pregação?” (Is 53.1)
Isaías não encontrou muitos adeptos em sua mensagem profética e chamou Jerusalém de Sodoma-Gomorra. (Is 1.10). Chamou os sacerdotes de falsos, maus e com as mãos sujas de sangue, dos pobres das viúvas e dos órfãos e exortou-os a: "cessar de fazer o mal". Isaías denunciou a ética maligna que imperava em Israel: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!” (Is 5.20) com a mensagem neste tom, buscando mais agradar a Deus que aos homens, Isaias não conquistou a simpatia dos seus conterrâneos. Por isso, a pergunta que abre o versículo 1, ou seja, um desafio a crer e converter-se e mudar de vida.
Incredulidade é típico da natureza humana, inclusive dos religiosos. Vejamos como Jesus enfrentou isso. No evangelho de João, Jesus tem longas discussões com os religiosos judeus, por causa da incredulidade deles: “Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?” (Jo 5.45-47). Jesus foi preso, espancado e crucificado por causa da incredulidade dos religiosos, das autoridades e mesmo dos seus discípulos: “Se tu és o Cristo, dize-nos. Então, Jesus lhes respondeu: Se vo-lo disser, não o acreditareis; também, se vos perguntar, de nenhum modo me respondereis.” (Lc 22. 67-68).
Que tipo de mensagem é a nossa? Estamos realmente denunciando o pecado? Chamando ao arrependimento, à conversão, à mudança de vida? Foi isso que Isaías e Jesus, nosso Salvador, pregaram: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra. Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse.” (Is 1.18-20). Ou nossa mensagem está sendo mais de promessas e bênçãos, sem conversão, arrependimento e confissão?
b. Não tinha aparência nem formosura... Era desprezado... (Is 52. 2-3)
A sequência mostra o aspecto nada atraente do pregador, do profeta, do servo sofredor, do Messias. Aqui, não se trata de aparência física tão somente, mas o que se enxergava na maneira de viver do profeta. Para ilustrar, tomemos a figura de João Batista . O que diz o texto? “As vestes de João eram feitas de pelos de camelo; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.” (Mc 1-6). A figura não é atraente, suas vestimentas não eram de linho, nem mesmo de pano de saco, mas de pelo de camelo. Sim, não tinha aparência nem formosura. E hoje? Apóstolos, bispos, pastores correspondem a tal tipo? Ou será que o prioritário para nos é exatamente a aparência? Jesus mesmo vestia-se modestamente, e recomendou a seus seguidores: “...nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento.” (Mt 10.10). Quanto aos religiosos judeus, o que Jesus disse não foi nada elogioso: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas, interiormente, estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia!” (Mt 23.27).
A própria ética do mundo é seduzir as pessoas ao consumo. enfeitando os produtos, criando necessidades que não temos. Vivemos cercados de propaganda enganosa. Para consumir. nos endividamos nos cartões de crédito, e uma conta de R$ 1.000,00, devido aos altos juros, logo se transforma em R$ 2.000,00, tudo por causa do encantamento da aparência. O dinheiro, o consumismo nos engole e ficamos cativos, ajuntando "tesouros" na terra e não no céu, como ensinou Jesus.
c."... ele tomou sobre si as nossas enfermidades [...] o castigo que nos traz a paz estava sobre ele..." (Is 53. 4-6)..
Esta foi a tarefa do servo sofredor, do messias Jesus. Tomar sobre si as dores do povo, as enfermidades, os pecados. Afinal, já dissera o salmista: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia.” (Sl 32.3). Jesus encarnou isto: o pecado que torna enfermo o ser humano foi assumido por Jesus através de sua morte que o acompanhou por todo o seu ministério. Jesus lidou com a doença e com o pecado sempre com amor e misericórdia, assim foi com a mulher sirio-felicia, com a mulher adúltera, com Zaqueu e tantos outros. A Igreja primitiva viu nas curas que Jesus operava um aspecto do perfil do servo sofredor como o Messias. Sobre isso, reafirma Mateus: “... para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.” (Mt 8.17). Atos dos Apóstolos demonstra também o uso de Isaías 53 de modo claro: “Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca. Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada. Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?” (At 8. 32-34).
Paulo, sobre o sacrifício expiatório de Jesus e a justificação dele decorrente, constrói a sua teologia da salvação; vejam os textos seguintes: “E não somente por causa dele está escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Rm 4.23-25), e “Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1 Co 15. 3-4). O próprio apóstolo demonstra sua comunhão dos sofrimentos de Cristo: “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus.” (Gl 6.17). Por fim , faço minhas palavras as palavras do apóstolo Pedro: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados”. (1 Pe 2.21-24).
Que Deus continue abençoando a sua vida, esta é minha oração.

Em Cristo,

Bispo Paulo Lockmann

Obrigado Bispo Paulo,

Abraços,

Pr. Thiago Pacheco

Fonte: http://www.metodista-rio.org.br/conteudo.xhtml?c=25

terça-feira, 9 de março de 2010

Eu sou o Bom Pastor

Texto base: João 10.11

1) Deus, o Pastor do seu povo.

Estamos chegando ao tempo de celebração da Páscoa, e seu memorial recorda que, no Êxodo, Deus demonstrou sua disposição de libertar e salvar o seu povo. Deus restaura a promessa; a Páscoa recorda o cuidado de Deus, por isso Ele é chamado o Pastor de Israel. O Salmo 23 declara isso: "O Senhor é o meu Pastor".

O profeta Isaías, ao anunciar o novo êxodo do exílio, reafirma a figura protetora, libertadora e consoladora do Pastor de Israel: "Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seio; as que amamentam, ele guiará mansamente." (Is 40.11).

Diante desta figura é que Jesus se apresentou como o bom pastor - João 10. Jesus, além de advertir sobre o falso pastor, que é ladrão, que usa, explora, rouba e mata as ovelhas, anuncia quais as características do bom pastor. Tais características são úteis à Igreja hoje, especialmente quando muitos tornam-se pastores da noite para o dia, falam na rádio, na televisão, etc. Precisamos conhecer o(a) verdadeiro(a) pastor(a), para podermos distingui-lo do falso.

No retiro com os Superintendentes Distritais, ouvi algo que sabemos, mas nem sempre praticamos: o grande diferencial da Igreja Metodista em relação a outras Igrejas é o pastoreio. Cuidar das vidas, discipulá-las, resgatar-lhes a Esperança que só Jesus dá. Dar-lhes uma comunidade de fé.

Vejamos:

2) "As ovelhas ouvem a sua voz".

Esta afirmação nos coloca numa situação muito difícil, pois há líderes que não reconhecemos como pastor, mas que têm um "grande rebanho", ou seria grande público? Há diferença? Com certeza. Jesus, por exemplo, teve um grande público, mas poucos seguidores. Há muitas pessoas que não querem ser ovelhas, não querem compromissos, preferem ser enganadas e irem enganando. O bom pastor fala em nome de Deus; não fala para agradar aos seus ouvintes, mas a Deus; a este, as verdadeiras ovelhas, as que de fato querem ser discípulos, querem ter compromisso com Deus, ouvem a sua voz; pois sabem que o bom pastor não fala só de cura e prosperidade, mas também de cruz, sofrimento, luta e vitória. Do caminho estreito que leva à vida, mas também da certeza da vitória em Cristo.



3) Ele conhece, pelos nomes, todas as suas ovelhas.

Aqui está o grande diferencial: Jesus conhece as suas ovelhas. O bom pastor também precisa conhecer as suas ovelhas. Isso significa conhecer qual é a fraca, a enferma, isto é, sabe das necessidades de cada uma, tratando-as com amor. Hoje, o culto para muitos é um show, onde muitos pastores se tornaram animadores de auditório e as ovelhas platéia; são rostos disformes e distantes: como conhecê-los? Como chamá-las pelos nomes? Para esses pastores, acabou-se o pastorado e o pastoreio; seus interesses são outros: a lã, a pele, a carne das ovelhas; são mercenários. Mas o bom pastor continua existindo. O bom pastor conhece as ovelhas pelos nomes, cultiva intimidade, chora com elas, alegra-se com elas. Este é o modelo metodista de pastorado. Pastores que apascentam o rebanho, que amam o seu rebanho, e, se necessário, deixam as 99 no aprisco e vão em busca da que se perdeu.

4) Ele guia as suas ovelhas pelas veredas da justiça.

Cabe ao pastor cuidar e guiar as suas ovelhas. Cuidar é conhecer as necessidades e supri-las, é impedir que a ovelha seja atingida; caso atingida, cuidar das feridas. Mas o bom pastor tem também o cuidado de ensinar o caminho seguro para as ovelhas e conduzi-las ao lugar de alimento abundante: a Palavra de Deus. O bom pastor precisa, como Jesus, ser portador de palavras de vida eterna. (cf. Jo 6.68). O bom pastor, ao conduzir as ovelhas, escolhe o caminho, pois sabe que o certo é estreito, difícil, porém é o caminho da verdade que conduz para a vida (cf. Mt 7.13-14). O bom pastor não ilude a ovelha, deixando-a andar por onde quer, antes, a adverte quanto às suas escolhas na vida; sejam escolhas boas ou más.


5) Ele vai adiante delas e elas o seguem.

O bom pastor é o exemplo de tudo o que ensina. Isso nos recorda o Apóstolo Paulo, quando, falando às suas ovelhas da Ásia Menor, diz: "Vós bem sabeis como foi que me conduzi entre vós em todo o tempo desde o primeiro dia em que entrei na Ásia,..." (At 20.18). Ou ainda o que ele recomendou à igreja em Filipos: "O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus da paz será convosco." (Fp 4.9). Tenho ensinado e me imbuído que não basta aos pastores e líderes terem a reta doutrina, precisam acompanhá-la da reta prática. Este era o diferencial de Jesus: "Ele ensinava como quem tem autoridade".

As ovelhas não vão seguir um(a) pastor(a) cuja vida não confirma o seu ensino; não basta lançarem desafios de oração, jejum, vida santa, se tais ensino não podem ser vistos em suas próprias vidas. Ele é vanguarda, ele abre caminho para as ovelhas, e as conduz às águas tranquilas, mesmo no vale da sombra da morte ele as acompanha, e mais, vai à frente, mostrando o caminho seguro.



6) Ele dá a vida pelas ovelhas.

O bom pastor tem por prioridade o rebanho. O bem-estar, a cura, a salvação das ovelhas é a prioridade do bom pastor. Quando os guardas vieram para levar Jesus e os discípulos, Jesus se colocou à frente, impedindo que seu rebanho fosse preso em seu lugar: "Sabendo, pois, Jesus todas as cousas que sobre ele haviam de vir, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais?" (Jo 18.4). "Então lhes disse Jesus: Já vos declarei que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes; para se cumprir a palavra que dissera: Não perdi nenhum dos que me deste". (Jo 18.8-9).

O bom pastor não somente dá a vida pelas ovelhas, como dá a vida às ovelhas. Quando nos tornamos parte do rebanho de Cristo, deixamos a vida sem perspectiva própria para ganharmos a vida abundante, eterna. Temos futuro também, pois além de desfrutarmos de uma nova vida agora, não tememos mais a morte, pois temos vida eterna, ou como disse o Apóstolo Paulo: "Porque eu estou bem certo de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem cousas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor." (Rm 8.38-39).

Eis o desafio do ministério pastoral metodista, assim como de cada igreja local: pastorear o povo, o bairro, ao estilo de Jesus, cuidando, amando e, se necessário, dando a própria vida pelas ovelhas, pois: "... quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa, achá-la-á". (Mt 16.25).

Bispo Paulo Lockmann

Obrigado Bispo Paulo,

Pr. Thiago Pacheco

Fonte: http://www.metodista-rio.org.br/conteudo.xhtml?c=211

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Nova Comunidade de Discípulos: Fundação e Caminho

"Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus, sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse: Senhor, tu me lavas os pés a mim? Respondeu-lhe Jesus: O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar, não tens parte comigo. Então, Pedro lhe pediu: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça. Declarou-lhe Jesus: Quem já se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais, está todo limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos. Pois ele sabia quem era o traidor. Foi por isso que disse: Nem todos estais limpos. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes. Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar. Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que EU SOU. Em verdade, em verdade vos digo: quem recebe aquele que eu enviar, a mim me recebe; e quem me recebe recebe aquele que me enviou" João 13. 1-20

1. Introdução: Os discípulos, o grupo pequeno de Jesus.
Queremos refletir sobre a exigência bíblica do discipulado na expressão dos grupos pequenos. Não há como contestar a prioridade do discipulado; nosso problema é com os diversos modelos propostos no meio evangélico; muitos com estilos contrários aos Evangelhos, alguns mais próximos aos modelos empresariais de equipes de treinamento em produção e eficiência (não que sejamos contra a eficiência), outros com modelos cabalísticos (simbolismo dos números) e outros baseados em autoritarismo e manipulação.

Seguindo a ênfase do Plano Nacional, entendemos que toda a Igreja precisa tornar-se uma comunidade de discípulos e discípulas, isso "porque reconhecemos a precariedade com que, de modo geral, estamos tratando os novos cristãos, os recém-convertidos, em sua capacitação para o exercício da Missão. E admitindo, também, que temos deixado constantemente de nutrir os membros que há anos participam da Igreja, dos quais muitos não descobriram seus dons, nem frutificam num ministério, nem conseguem viver uma vida de conformidade com a Palavra de Deus."[2]

Por isso, queremos convocar a todos a um confronto com as Escrituras Sagradas, nossa vida diante da Palavra. Nossos caminhos no discipulado não serão determinados por terceiros, mas pela orientação da Palavra de Deus. Ainda que em nosso espírito ecumênico, dentro dos limites dado pelo Colégio Episcopal, sejamos abertos a aprender com outros, confrontando sempre tudo com a Palavra e com nossa herança wesleyana.

Assim, inspirados pelo famoso texto do lava-pés, quero refletir mais uma vez sobre o discipulado de Jesus, sabendo que nele foi decisivo o grupo pequeno dos discípulos. Jesus começou com eles, ou seja, chamou os doze ao discipulado permanente, que antes de sua morte se transformou em 11, com a traição de Judas. É evidente que Jesus começa seu ministério formando um grupo pequeno: "Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios." (cf. Mc 3.13-15). Encerra seu ministério terreno, reunindo seu grupo pequeno e passando as últimas instruções: "Finalmente, apareceu Jesus aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, porque não deram crédito aos que o tinham visto já ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." (Mc 16.14-15). Diante dessas evidências bíblicas, não resta dúvida da prioridade do discipulado, nem da estratégia do grupo pequeno ter sido fundada no Cristianismo pelo próprio Senhor Jesus.

Nosso texto de estudo é um relato que antecede a celebração da Páscoa de Jesus. Sobre isso, diz León-Dufour: "Ao querer formular seus últimos pensamentos, Jesus começa por constituir sua própria comunidade, os seus discípulos que crêem em sua missão.O gesto do lavar os pés simboliza a doação que Jesus vai fazer de si mesmo, e significa o comportamento de cada um dos discípulos na vida da comunidade."[3]

2. As lições do lava-pés - Um testemunho de humildade.
a) "...ora, antes da Festa da Páscoa..." (Jo. 13.1).

Na época de Jesus, devido à opressão estrangeira, cada Páscoa era aguardada com grande expectativa, pois, nela, poderia manifestar-se o Messias Libertador de Israel. Na escola rabínica de Hilel[4], avô de Gamaliel, mestre de Paulo e contemporâneo de Jesus, afirmava-se que o Messias deveria vir entre os dias 14 e 15 do mês de Nisan, por ocasião do sacrifício do Cordeiro Pascal, quando, também, fatos extraordinários deveriam marcar esse momento.

Curiosamente, não há em João a celebração da ceia pascal. O texto que registra esse momento íntimo entre Jesus e seu grupo pequeno dos discípulos sublinha que ocorreu antes da festa da Páscoa a grande celebração, uma ceia e o lava-pés. Isso porque, na cronologia de João, possivelmente a mais correta, conforme diversos estudiosos, Jesus é preso antes da Páscoa. "Depois, levaram Jesus da casa de Caifás para o pretório. Era cedo de manhã. Eles não entraram no pretório para não se contaminarem, mas poderem comer a Páscoa." Como podemos ver, Jesus é posto na cruz na hora sexta, o mesmo horário que começava na véspera da Páscoa, o Parasceve (cf. Jo 19.14), momento de se sacrificar os cordeiros pascais no templo[5]. Nesta Páscoa, Jesus será como anunciado no início do Evangelho: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo." (Jo 1.29). A ceia do Senhor, conforme descrita nos demais Evangelhos, foi, com certeza, comida antes da Páscoa judaica, propositalmente, porque Jesus sabia, todo o tempo, de suas iminentes prisão e morte. (cf. Mc 8.31; Lc 9.20-22; Jo 11.53-57).

b) "...sabendo Jesus que era chegada a sua hora..." (Jo. 13.1).
Como Filho de Deus, Jesus sabia o que não sabemos: a hora da sua morte, e isso por cumprir como Messias de Deus uma missão de salvação do mundo (cf. Jo 3.16). Aqui, vem uma pergunta para orientar nosso discipulado: Quantos de nós temos na comunhão com Deus sua fonte de poder e direção na vida como fez Jesus? E, nessa comunhão, se submete em total obediência?

Não há forma de encarar a missão, a não ser na comunhão do Pai. Jesus repetiu isso diversas vezes: "Eu e o Pai somos um." (Jo 10.30). Essa unidade entre o discípulo e o Deus Pai, Filho e Espírito Santo é definitivamente vital no discipulado. Só formamos uma comunidade de discípulos se mantemos comunhão com o Senhor e n´Ele, comunhão uns com os outros. Com isso, reconhecemos que é a comunhão com Deus nossa fonte de poder para realizar a missão, e até para enfrentar a morte. Paulo sabia disso; por isso dizia: "Tudo posso naquele que me fortalece." (Fp 4.13).

Assim, para conhecer os propósitos de Deus para nós, precisamos, como Jesus, ser um só com o Pai em amor.

c) "levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela". (Jo. 13.4).
Pelo pouco espaço que tenho, salto sobre outros temas do texto, para entrar no acontecimento propriamente dito.

A expressão é "levantou-se da ceia". Podemos dizer: deixou seu lugar de Senhor. Gene Wilkes em seu livro O Último Degrau da Liderança[6], conta uma interessante história ocorrida com ele: "Encontrei-me, certa vez, na mesa principal de um evento, aquela onde se sentam as pessoas importantes. Minha tarefa era apresentar o orador, depois de o músico ter cantado. Quando o orador começou a falar, todos, na mesa principal, levantaram-se e foram sentar-se entre os presentes à conferência. Todos, menos eu! O orador, que viu as pessoas saírem da mesa principal, disse:
- Quem estiver na mesa principal e quiser sair, pode fazê-lo agora. Fiquei de pé, sozinho, e declarei:
- Eu gostaria muito! - Todos riram e, com o rosto vermelho, fui sentar-me à mesa dos funcionários da cozinha. Da mesa principal para a posição de funcionário da cozinha - na frente do grupo dos meus companheiros! Que decadência!

Quando o sangue voltou ao resto do meu corpo, a história de Jesus sobre onde se sentar nos banquetes me veio à mente. Ele ensinou:

"Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu, vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, envergonhado, ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convivas. Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado." (Lc 14.8-11).

Nós, líderes, esquecemo-nos muitas vezes de que o verdadeiro lugar da liderança cristã é no meio da multidão, não na mesa principal."

Aqui, vemos com que grande dificuldade nós, seres humanos, abrimos mão da posição de honra, para assumir a condição de servo, saber fazer esta trajetória quantas vezes seja necessário é o que distingue uma liderança igual à de Jesus, de uma liderança autoritária, vaidosa, arrogante e nada bíblica, que busca, sim, os privilégios para si, e para os seus.

A verdade é que não há alternativa, é necessário fazer isso freqüentemente, e como líderes imitarmos a Jesus (cf.1Co 11.1), descemos do lugar especial (púlpitos-altares), e pegarmos a toalha para servir.
Neste ato, Jesus estava restabelecendo o que era a prioridade na nova comunidade dos discípulos; ou seja, o amar a Deus acima de todas as coisas se expressava visivelmente no serviço amoroso uns aos outros. É necessário adquirir um coração de servo, algo definido por Paulo como: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, [...] antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo... a si mesmo se humilhou..." (Fp 2.5-
8). Tenho crido que Paulo tinha em mente a passagem do lava-pés, e até os relatos da paixão e ressurreição, quando escreveu este belo texto. "Pois os líderes servos abdicam, de seus direitos pessoais para encontrar grandeza no serviço prestado aos outros." 7

d) "Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e Senhor, e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros." (Jo 13.12-14).
Jesus apela ao entendimento dos discípulos, porque, sem dúvida, eles ficaram perplexos com o que estava acontecendo. Prova disso é a expressão de Pedro: "Senhor, tu me lavas os pés a mim?... Nunca me lavarás os pés." Foi necessário Jesus radicalizar: "Se eu não te lavar os pés, não tens parte comigo." (Jo 13.6-8).

A grande lição de humildade é dada aqui a cada um dos discípulos, membros daquele grupo pequeno. Verdade é que nós, seres humanos, não precisamos ser ensinados sobre orgulho, vaidade, arrogância, porque esses sentimentos nascem conosco. Nossa natureza humana nos faz ansiosos por reconhecimentos, por dominar sobre os outros; tais sentimentos estão na raiz da maioria dos nossos pecados. O fato é que humildade precisamos aprender. É virtude espiritual, quando Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para exercitar o domínio sobre sua natureza humana carnal: aprendeu a depender do Pai. Vindo do deserto, foi a Nazaré, e disse: "O Espírito de Deus está sobre mim". (Lc 4.16) Não há meios de nos tornarmos humildes, senão nos caminhos de Jesus, sujeitando nosso natureza terrena à direção do Espírito, como nas palavras de Paulo: "Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita." (Rm 8.11).

O Senhor, lavando os pés dos discípulos e servos, criou um confronto, quebrou a prática usual, e introduziu a ética do amor e do serviço como doação da sua vida, em serviço ao mundo. Isso queremos aprender e ensinar, e desenvolver através do discipulado, por meio de grupos pequenos.

3) Conclusão - Nossa missão através do discipulado.
Queremos, nesta perspectiva de discipulado, envolver todos os metodistas da 1ª RE nessa tarefa de nos tornarmos homens e mulheres maduros no Senhor, capacitados para, como diz Paulo: "...para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus."(Ef. 3. 16-19).

Desse modo, seremos de fato uma Igreja de Dons e Ministérios. Onde todos estão integrados num grupo pequeno de santificação e evangelização. De modo a nos tornarmos efetivamente um sinal de esperança aos oprimidos, uma comunidade de resistência à corrupção, e a todas as formas de heresias. E assim alcançando vidas, famílias, plantando novas igrejas, bairro a bairro, cidade a cidade, anunciando as boas-novas da graça, amor e salvação, tornando-nos, efetivamente, uma: Comunidade Missionária a Serviço do Povo.

Orando por todos,

Bispo Paulo Lockmann
________________________________________
[1] Mateos e Barreto, Juan - O Evangelho de João. São Paulo: Paulinas. 1989. p. 555.
[2] Lockmann, Paulo - O Caminho do Discipulado - de Jesus a nós. São Paulo: Cedro. 2000. p12.
[3] León-Dufour, Xavier - Lectura del Evangelio de Juan. Volume III. Sigueme: Salamanca. 1995. p.15.
[4] Danby, H - Mishna. London: Oxford University. 1958.
[5] Mateos e Barreto, Juan - op. cit., p.768.
[6] Wilkes, C. Gene - O Último Degrau da Liderança. São Paulo: Mundo Cristão. p. 15.
7 Wilkes, C. Gene - op. cit., 106.

Obrigado bispo Paulo.

Pr. Thiago Pacheco